A Onça Caetana (da "História d'O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao sol da Onça Caetana", Ariano Suassuna
Ela se mantem invísivel "..exeto aos olhos inocentes e cruéis das crianças, dos Profetas, dos loucos e daqueles que, bebendo o vinho sagrado da Pedra do Reino, ficam possuídos pelo divino dom da Poesia divino-demoníaca, escumajante, alucinatória, epilética e cegadora."
"O corpo da Moça Caetana é moreno, pois ela é uma divinidade Cariri. Seus peitos, porém, são alvos, de auréolas apenas rosadas, mas com os bicos bem vermelhos, mais do que os de qualquer outra mulher no mundo. É que, quando ela sob forma de fêmea, escolhe um homen para matar, aparece a ele entre delírios e prodígios e exibe-lhe agressivamente seus peitos. O homen, fascinado, beija-os, e, ao mesmo tempo em que os morde, é picado pela cobra-coral que serve de colar à Moça Caetana. É então que o homen é fulminado nos estremeços obscenos da morte. Caetana bebe-lhe o sangue, e é o sangue dos assassinados que alimenta seus peitos, tornando-os belos, opulentos, rosados e de bicos vermelhos daquela maneira.
Agora, ainda deitada, ela olha em seu corpo esses dois belos peitos e, mais embaixo, a concha selvagem, entrecerrada na relva escura dos pêlos noturnos. Com os dedos da mão direita, apalpou, num ritual, primeiro o peito esquerdo, depois o direito, ao mesmo tempo em que colocava a mão esquerda espalmada sobre o púbis selando o concriz negro-vermelho do sexo. No mesmo instante meçou a perder a sua forma de mulher e a assumir a de Onça malhado-vermelha. A cobra-coral cujo nome é Vermera, que lhe serve de colar e nunca larga seu pescoço, enroscava-se ali, ferindo o ar de vez em quando com sua língua bipartida. Enquanto isso, as três aves-de-rapina da Morte pousavam sobre ela e, cravando-lhe as garras, começaram a penetrar em seu corpo - na sua pele, na sua carne, no seu sangue, nos seus ossos - primeiro as garras, depois os pés, as pernas, até que os próprios corpos das cinco passassem a ser um corpo só, com seis asas e cinco cabeças, a da Onça, a da cobra e as três das Aves-de-rapina.
Composta assim a estranha Fera, havia algo de belo e de infame, de reluzente e fascinador, mas repugnante. No flanco direito da Onça, ficou cravado a ela, pelo corpo, o gavião-vermelho, Caintura, o gavião da fome, da sede, da doença e do tempo. No flanco esquerdo, o gavião-negro Malermato, o gavião de nudez, do sofrimento, do infortúnio, do acaso e da necessidade. Entre os dois, no dorso e entre as espáduas da Onça, o carcará negro, castanho e branco que se chama Sombrifogo - a ave-de-rapina do assassinato, da chacina, da guerra e do suicídio."
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